Atirador
# Notas autoficcionais
De manhã somente aquela coisa seca na boca. O desejo por um gole d’água é maior que tudo. Este é mais um daqueles dias que o despertador não interessa, não tenho horário para acordar. Mesmo assim olho para o lado e vejo aquela luz vermelha que, mesmo fraca, machuca os meus olhos. São 11:09 da manhã. É cedo ainda. Viro e do lado vejo um corpo. É a Janice, ou pelo menos é assim que ela diz se chamar. Nunca se sabe com estas putas. Ela está só com uma meia longa vermelha esticada até o joelho esquerdo, deitada de bruços, com um lençol cobrindo parcialmente seu corpo. Ocupa grande parte da cama. É melhor eu nem tentar dormir de novo. Levanto, devagar, e, de cuecas mesmo, vou para o banheiro da kitnet tomar um banho e torcer para ela acordar e ir embora de uma vez sem roubar nada. Faço barulho, abro a cortina. Ela não acorda. Bebemos muita vodka ontem para se querer abrir os olhos, acordar ou viver.
Saio do banho e ela ainda está lá, deitada, fedendo e arregaçada. Deixo o dinheiro em cima de mesa e saio. Não há nada de valor em casa mesmo, e ela não é louca de pegar nada. Essa puta sempre está lá no Figueira, senão na esquina da Lagoa. Preciso comer algo. Como sempre só a água na geladeira, pouco porque esqueci de repor da torneira. Não dá pra bebê-la direto da torneira, se não está gelada. É um gosto de metal e um cheiro de esgoto. Coloco qualquer roupa, ligo a TV com o volume alto e bato a porta na saída. Só ouço um resmungo vindo de dentro do apartamento. Aquela vagabunda não consegue sequer gritar comigo de tão bêbada.
Quatro andares eu prefiro ir de escada. O elevador demora tanto que não vale a pena esperá-lo. E sempre corro o risco de encontrar algum vizinho. Como a velha do 708, que sempre me aluga naquele minuto interminável para perguntar da minha vida. Ou então aquele viado que eu nem sei onde mora, mas que fica usando roupas de mulher por aí e respirando perto de mim quando o elevador está lotado. Isso quando não traz as amiguinhas bichas dele pro prédio e ficam falando alto só pra me irritar. E eu sei que é pra me irritar porque ainda ficam dando tchauzinho e me chamando de machão quando a porta se fecha. Um dia ainda arrebento a cara daquelas bichas! Depois reclamam de homofobia, que batem nesses filhos da puta! Bom, nas escadas não encontro nada disso.
Só lá embaixo encontro o Seu Nestor, o porteiro do prédio. Apesar de negro, Seu Nestor é gente boa. Não que eu tenha nada contra os pretos, mas o que mais tu vê é esse nego vagabundo, que conseguem um emprego como porteiro e ficam o dia inteiro vadiando e de prosa, mas não fazem o mínimo que precisam fazer. Principalmente os morenos. Os negros mais pretos são mais trabalhadores, já os negros mais mulatos são uma raça degenerada. O Seu Nestor não, sempre de bigode aparado, roupinha engomada e ajeitando a correspondência do prédio, cuidando dessa piazadinha que fica de algazarra nos corredores. Acho que tem uma origem nordestina ou coisa assim, porque é baixinho, cabeçudo e tem um sotaque estranho. Mas sabe dizer bom dia, abre a porta e mantém a ordem no condomínio. Ele é um cão de guarda. Simpático com os donos, sabe se impor quando alguém tenta invadir o galinheiro. O prédio é um desses blocos cheios de apartamentos, de gente degenerada, mas o Seu Nestor mantém as coisas nos eixos.
- E aí, Seu Nestor.
- Bom dia, Dr. Rogério.
E é isso o nosso papo. Ele abre a porta e eu sigo meu caminho.
O Bar do Figueira fica na esquina da minha casa. De dia um boteco com uma sinuca e um PF pro almoço. De noite um lugar onde as putas como a Janice aparecem e ficam tentando filar um trago e um cliente pra noite. Putas velhas, já sem carnes, já sem graça. Muitas se vendem para poder pagar as drogas. Andam com poucas roupas. São chamadas de “queridas” pelos donos do estabelecimento quando entram para tomar uma dose de cachaça às duas da tarde, quando o movimento na esquina em que costumam ficar está fraco e o sol está forte. Nunca fui muito de putas, mas desde que a Silvana me deixou eu tenho que liberar as energias de vez em quando. Chamo o Figueira e peço uma quentinha pra levar.
Sento no banco do lado do Paulo, que tá tomando uma gelada. Conheço ele desde a época do casamento. Trabalhou comigo na oficina. O Paulo era um grande amigo, mas um funcionário meia boca. Dava pouco dinheiro pra oficina, queria sempre colocar os equipamentos mais caros nos carros, o que não dava. Quando se tem um pequeno negócio se trabalha no limite, não se pode gastar desnecessariamente em peças, por mais boas que elas sejam. Uma de segunda mão é sempre uma boa opção quando o cliente não pode ver onde ela fica. Mas o Paulo não fazia isso. Sempre jogava o orçamento lá embaixo pros clientes e comprava as peças mais caras. Daí não tinha matemática que fechava. Mas ele era um bom mecânico. Eu sempre fui um bom mecânico, mas nunca um excelente mecânico, que nem o Paulo. Eu sou apaixonado pro carros, é isso o que eu faço da minha vida, é minha profissão. Mas eu queria mesmo era entrar no exército. Foi para isso que eu nasci, não fosse ter rompido os ligamentos do joelho ao cair num exercício no CPOR, eu seria um grande militar. Mas depois daquilo eu nunca mais fui o mesmo. Nem no futebol consegui me dar mais. De vez em quando jogo no gol, para me divertir, mas não é a mesma coisa.
- Ôo Figueira, vê mais um copo aí! E o teu time, Rogério?
- Ah lá vem tu com esse papinho. Já caíram duas vezes e continuam falando da gente...
- Tá bom, tá bom. Meu time não tá lá essas coisas também. O jogo com o Palmeiras foi uma vergonha, perder em casa não dá! Mas e o Lucas? Já virou gremista? Tem falado com o piá?
- Eu não entendo aquele guri. É um vagabundo que só quer estudar e que pediu pra ser dispensado do exército. Pode isso? O filho da puta podia ter um emprego com 18 anos, uma carreira pela frente, mas ao invés disso prefere ficar estudando mais 4 anos na faculdade, eu tendo que sustentar com pensão aquele filho da puta, pra depois virar professor e ganhar uma miséria do Estado. Bem que tudo merecem se fuder! Mas vamo tocar um escola sem partido nesses filhos da puta. Acabou a mamata!
- Não sei, deixa o guri estudar, homem! Pelo menos ele é Colorado que nem o pai. Já pensou se o teu filho fosse gremista? E viado? Tu não ia me aguentar! Hahahaha Tô brincando alemão. Ele podia tá vadiando por aí sem estudar...
- Eu sei, mas não suporto essa frescura! Bem que podia trabalhar comigo, mas não quer. Culpa de quem? Da mãe dele, que tratou o guri como uma bicha, passando a mãe na cabeça dele, que não podia bater e aquele mimimi. Agora eu tenho que ficar sustentando aquele vagabundo! Mas te dizer Paulo, ainda bem que me livrei dela. Aposto que anda dando pra metade da cidade depois que a gente se separou.
- Tu sabe que a Silvana não é dessas Renato. Tu sabe bem porque ela saiu de casa...
- É, eu exagerei aquela vez. Foi culpa minha mesmo. Eu tava bêbado feito um gambá quando cheguei, e o pior que aquela noite eu tinha comido uma puta, gastei uma grana que não tinha no cabaret. Daí eu chego em casa naquele estado e a Silvana me esperando, vem cheirar meu hálito, vê que eu to cheirando a puta e vem pra cima de mim. Eu só fui afastar ela, mas tava meio bêbado e acabei derrubando ela na mesa de vidro. Na hora a bebedeira passou, eu mesmo chamei a ambulância e pedi desculpas Paulo. Daí ela saiu do hospital direto pra casa da mãe dela, nem passou pra buscar as coisas. E o Lucas foi junto, ficou puto e nem fala mais comigo, aquele viadinho! Tu sabe Paulo, eu parei de beber daquele jeito depois daquilo, até voltei pra Igreja. Pedi perdão, mas não teve jeito. Ela nem me deu oi na hora de assinar os papéis. Agora que se foda! Voltei pro trago e pras putas!
- Sei... e pro diabo! Hehe E o trabalho, tchê?
- Ah! Ainda to no INSS. Uma merda. O filho da puta do médico não quis renovar minha licença. To na procura de algo. Mas tá difícil. Ninguém quer contratar um mecânico com 50 anos, sem curso e com uma maldita tendinite que não me deixa trabalhar direito. Tô torrando os últimos trocados desde que vendi a casa por causa da separação.
- Então deixa que eu pago essa!
- Tá bem.
A quentinha chega, volto pra casa e a puta já não está lá. Ela era feia, magra, meio banguela e com umas tetas caídas. Mas é o que tem. À princípio está tudo aqui, tirando os 80 pilas de sempre. E as contas continuam aqui em cima da mesa. Uma pilha delas, já nem as abro mais. Depois do divórcio a coisa ficou difícil. Essa é uma grana que preciso pagar, porque os filhos da puta da justiça não tão nem aí se eu tenho emprego, se tenho de onde tirar o dinheiro. Eles só querem que eu pague, senão eu vou pra cadeia. Há meses que tô me virando do jeito que dá pra pagar essa conta. E a cada vez aparecem outras coisas... Tenho que resolver este problema, mas é foda. Penso na última vez que fui ao banco. Passar por aquela porta de metal, pegar uma senha e mofar naquela maldita cadeira, enquanto o gerente, de paletó, gravata e todo engomadinho, ignora que eu estou lá, mexendo em papéis, teclando no computador. Aposto que está jogando paciência, trovando no Facebook ou postando fotinho no Instagram. Baita viado! Ele finge não me ver, olha concentrado para o computador, como se, seja lá o que ele faz lá, fosse mais importante do que eu: o cliente! Enquanto isso, eu só observo aquele local. E se o gerente finge não me ver, o cara por trás de uma placa de metal, com um cano na mão, me encara, eu sei disso. Ele e os outros seguranças sempre estão de olho. Qualquer movimento brusco e bum! Já era. Esses caras não vão brincar aqui.
Foi nesse dia que decidi o que tinha que fazer: eu tinha que fazer algo pelo meu país! Foi como um estalo. Tinha passado a noite sem dormir, ansioso com a ida ao banco que podia me aliviar mais um mês. Quem sabe, conseguir renovar aquele empréstimo e sair com mais uma grana pra erguer meu próprio negócio. Eu não sirvo mais para ser empregado, ainda mais depois dessa reforma trabalhista. Ninguém mais quer sequer assinar carteira. É todo mundo terceirizado agora. Eu não vou ser terceirizado porra nenhuma! Nem um maldito plano de saúde oferecem. Entro no Facebook. A discussão na página do Armados até os dentes está bombando! Nada como refutar um comunistinha. Eu tenho até um fake pra ficar zoando nas páginas deles. O Hitler-sem-bigode (eu que criei essa!) chegou para apavorar a internet! Gosto de discutir em especial aquele viadinho do meu ex-cunhado. Vagabundo que nunca trabalhou na vida metido a intelectual! É só falar que vamos fuzilar esses esquerdopatas que ele se apavora! Depois que o Bolsonaro ganhou as eleições, finalmente se pode comprar armas mais livremente. Esses petralhas estão com o cú na mão.
Foi aí que eu enxerguei o meu destino, como um toque de Deus no ombro. No caminho de volta do banco, paro numa loja. Acho que existem mais lojas que vendem armas do que cafeterias, farmácias ou pet shops. Peço uma Glock 9mm, “ela atravessa paredes, portas, praticamente qualquer coisa”, diz o vendedor. Um guri de uns 20 anos, ainda com espinhas na cara. Eu podia conseguir um emprego aqui, mas vou não me humilhar a receber um salário de merda desses, 15 dias de férias ao ano, até 12 horas de trabalho sem folgas no sábado. Eu podia comprar essa droga na internet, mas eu gosto de sentir o ferro na mão, o peso da arma, olhar pela mira. Eu tinha uns 9 anos quando atirei pela primeira vez. Meu pai me levava para caçar pombas no interior, com uma arma de chumbo. Naquela época ainda era restrita a venda de armas. Hoje qualquer um com uma identidade pode comprar. É só fazer um curso que dura 30 minutos, chegar na loja, preencher a ficha e em 5 minutos já está tudo pronto, dependendo da arma. Muitos vendedores nem pedem antecedentes. Com meu velho, comíamos as pombas depois e acampávamos na beira do rio. Nessa cidade eu não comeria uma dessas pombas mutantes nem que me pagassem. Quero uma Winchester e um AR-15 também. Dá pra comprar as armas, mas ainda está muito caro. Pelo menos afasta a chinelagem. Essa brincadeira vai me custar 5 mil reais. Foi o que deu pra tirar do banco. Pouco pra pagar minhas dívidas, mas o suficiente para resolver um problema social.
Pego o que sobrou da minha vida, ou seja, meu carro, e vou. Já está tudo preparado, a Glock está toda enroladinha na proteção de camuça, a AK-47 com toda a sua munição dentro da caixa, a Winchester devidamente guardadas no porta malas. Saio da garagem, sem deixar de acenar pro Seu Nestor, como uma terça-feira qualquer de dezembro. Entro no estacionamento do centro. É dia de protesto na praça, em frente à Assembleia Legislativa. A polícia protege o lugar, mas eles não conseguem acabar com a algazarra. Estes sindicalistas estão lá tem mais de mês. Tomam gás lacrimogêneo, tomam bala de borracha e nada. Continuam lá, como que esperando por mim. Mais de mil pessoas, protestando porque vão perder a mamata nas tetas do governo, o carguinho público. Enquanto isso, cidadãos-de-bem, trabalhadores como eu, se fodem pra conseguir um emprego de merda!
Eu decidi resolver o problema eu mesmo, já que os políticos não têm coragem. Subo pela rampa em curva até o estacionamento do terraço. Lá é o melhor lugar para se ver tudo o que acontece. Pouca gente circula lá por cima. Pego as maletas com as armas e procuro o lugar mais adequado, em que se pode ver todo o movimento, as pessoas como formigas ao redor do doce derramado na pia da cozinha, alheias ao que acontece nesse país, pensando apenas no seu salário, no seu umbigo, alheias ao que ocorre comigo. Me abaixo, abro as maletas, coloco um joelho no chão. Olho para a Catedral e por um minuto rezo em silêncio para que Deus perdoe aquelas almas. Pego meu fuzil, miro no primeiro comunistinha filho da puta que vejo – eu nunca vou esquecer aquela camisa vermelha do Che Guevara - e disparo contra a multidão lá embaixo. Amém.
# Notas autoficcionais: um prato com um pouco de salada, um pouco de droga, um pouco verdade, um pouco inventado. As notas podem até ser baseadas em fatos reais, tanto quanto em filmes, livros e outras estórias que ouvi ou li. Qualquer semelhança com pessoas, cachorros, piadas ou fatos é pura falta de imaginação.

