Cérbero
Um monstruoso cão de três cabeças que guarda as portas do inferno, deixando as almas entrarem, mas jamais saírem.
Foto de Birmingham Museums Trust na Unsplash
The Mission of Virgil, William Blake.
Basta colocar os sapatos, pegar a chave de casa ou às vezes somente se aproximar da porta que os cães se eriçam. A coisa, no entanto, é acentuada quando a expectativa se aproxima da realidade e o dono pega as coleiras que ficam perto da saída da casa. Cosmo, o maior dos três, pula enlouquecido e quase derruba quem está no caminho. Nico senta e começa a choramingar, mendigando uns minutos ao ar livre. Já Dalva fica um pouco mais distante, balançando o corpo como se fosse toda rabo.
Depois de muito treino, o ritual de colocar as coleiras passa a ser mais rápido, organizado e eficiente, apesar dos inevitáveis percalços. Na maior parte das vezes isso acontece por culpa do ser humano, que esquece alguma coisa: o cigarro, o casaco e até mesmo a famigerada sacola para recolher os cocôs. Estes são os únicos itens levados no passeio. Nada que possa ocupar demais as mãos, tais como a carteira ou o celular, é viável com três animais puxando um para cada lado. Por vezes a cena fica grotesca. Parece a abertura do livro Vigiar e Punir, de Michel Foucault, em que há uma tentativa de desmembramento de um condenado à morte pelo uso da força de cavalos.
[Damiens fora condenado, a 2 de março de 1757], a pedir perdão publicamente diante da porta principal da Igreja de Paris [aonde devia ser] levado e acompanhado numa carroça, nu, de camisola, carregando uma tocha de cera acesa de duas libras; [em seguida], na dita carroça, na praça de Greve, e sobre um patíbulo que aí será erguido, atenazado nos mamilos, braços, coxas e barrigas das pernas, sua mão direita segurando a faca com que cometeu o dito parricídio, queimada com fogo de enxofre, e às partes em que será atenazado se aplicarão chumbo derretido, óleo fervente, piche em fogo, cera e enxofre derretidos conjuntamente, e a seguir seu corpo será puxado e desmembrado por quatro cavalos e seus membros e corpo consumidos ao fogo, reduzidos a cinzas, e suas cinzas lançadas ao vento.
Em São Paulo o suplício começa ao abrir a porta. Os três saem em disparada rumo ao corredor, entrelaçando-se nas pernas do pobre Damiens do Glicério, ainda com as chaves na mão. É preciso puxá-los de volta, cuidando para não machucar nenhum pescoço, à procura do buraco da fechadura no corredor escuro para trancar a porta. Em seguida, os cães se atiram novamente em direção à entrada que dá para a rua, mesmo que ainda faltem dois portões para atravessar.
Chegados na calçada, são e salvos – Cosmo sempre dá um jeito de se engasgar, puxando a coleira com muita força – os animais súbito se aquietam, à espera de qual lado devem sair. À esquerda, um bar na esquina cuja dona não simpatiza muito com animais, sejam seres humanos ou cachorros. À direita, o restante da rua, com seus postes prontos para serem atingidos por jatos de urina que marcam território e aliviam os canídeos.
Antes de tomar uma decisão, o guardião das feras acende rapidamente seu cigarro, aproveitando o momento de vacilo dos pupilos. Na sequência, dobra à direita para evitar o mau humor da dona do bar. O primeiro obstáculo é um pitbull que se esconde atrás de uma garagem. Seu latido sempre assusta todo mundo, especialmente Cosmo, que se dispõe a uma simulação de briga pelo pequeno espaço entre o portão e o chão, em que só é possível ver as patas e a fuça do adversário. No entanto, logo ambos perdem o interesse no embate.
Neste ínterim, Dalva aproveita e senta no meio da rua para fazer suas necessidades. Primeiro o xixi, que escorre para o lado, sujando a pata traseira. Mais alguns passos e vem o cocô. O primeiro do dia. Com o cigarro preso na boca, o passeador precisa de habilidade para segurar os três cães em uma mão, enquanto com a outra pega a sacola do bolso e junta os dejetos. Sai com a sacola e os três cães, já com as com as coleiras entrelaçadas, numa formação de matilha atrás do poste perfeito.
Até a esquina é uma luta para mantê-los na linha. Dalva escaneia cada centímetro de calçada na busca por um osso de galinha. Nico puxa a frente para ser o primeiro a mijar na graminha que se forma saindo da calçada. Cosmo é o mais obediente dos três, sensível a cada passo de seu dono. No fim da rua, todos param. Atravessam para que a primeira sacolinha vá para o lixo. Há um cachorro solto na esquina, chamando especialmente a atenção de Cosmo. Após algumas ordens de comando ignoradas pela trupe, eles dão meia volta para o retorno.
Nico para no mato mais próximo e é o segundo a fazer o número dois. Ele consegue sempre se posicionar bem na beirada e errar a grama, acertando a calçada. Mais uma sacola é tirada do bolso. Sem o cigarro na boca o trabalho se torna mais fácil. Seguindo o caminho, Dalva não desiste de pegar qualquer coisa com a boca. É preciso estar atento e tirar alguma coisa de sua boca antes que engula e se engasgue. Mais adiante é a vez de Cosmo iniciar o ritual profano. É fácil perceber quando é sua vez. Ele chega perto do arbusto e dá uma dançadinha, rebolando enquanto posiciona a parte traseira para deixar os excrementos.
O triplete está completo. Agora é só voltar para casa. Tudo dentro da ordem. Só faltam cerca de 50 metros. Os três cães estão agora distribuídos nas duas mãos. Cosmo e Nico na direita, perto do asfalto, deixando suas marcas nos postes que encontram. Na mão esquerda se encontra Dalva, segurada junto ao corpo do ser humano para que não coma mais porcaria. As coisas estão sob controle.
É na entrada do portão de casa que acontece o desastre. Lara, a cadela comunitária da rua, que anda sem coleira e dorme numa das garagens, aparece. Ela está no cio. Balança sua raba na frente dos cães, que enlouquecem. Cosmo parece um cavalo selvagem pulando alto - só falta relinchar - enquanto Nico puxa com força a coleira que quase rebenta. Os dois últimos sacos de cocô são esmagados nas mãos que buscam controlar a rebentação, enquanto Dalva ataca um pedaço de pizza do chão.



