Panaceia
# Notas de um sociólogo de boteco:
ALERTA: O texto a seguir ficou uma porcaria. Só precisava desabafar com textão.Machado de Assis é um dos meus escritores preferidos. MAS NÃO DEIXEM DE LER O TEXTO. FAÇO UMA PROMESSA PARA VOCÊ QUE CHEGOU AQUI. Coloco a mão na Constituição e afirmo:
- Por mais que o próprio Bentinho apareça encarnado na minha frente, não irei falar de Dom Casmurro.
Cansei de Capitu. Como diria Fiuk, não serei o homem-cisbranco-hetero-de-classe-média que vai falar se a mulher traiu ou não o Bentinho depois de ouvir somente o lado do homem na história. Vocês deviam fazer o mesmo.
Parece que os temas, sejam principais ou secundários, das histórias que ele escreveu volta e meia aparecem em minha vida. Claro que são muitas histórias e é pura coincidência, provavelmente relacionada ao fato que eu acabei lendo bastante ele, que é um autor que trata de assuntos diversos.
Aprendi muito lendo Machado, uma pena que isso não reflita a minha prosa. Nesse quesito fico mais perto de um beatnik que só despeja pensamentos e ações do que de um romancista como ele. Uma coisa específica me atormenta agora, que é o tema da medicalização da sociedade. Sim, pegarei uma bela tangente pra chegar em Machado de Assis. Depois de refletir um pouco, achei uma frase de efeito para compartilhar:
A frase “Vai pra terapia” é o novo “vai pescar”.
O que eu quero dizer? Que mandar alguém pra terapia é só uma forma de incomodar a pessoa, dizer que ela está fora de si sem querer dizer isso literalmente.
Não estou falando mal de terapia. Mas ela é tão necessária para as pessoas quanto ir pescar. Ou seja, uma metáfora para a ideia de que as pessoas precisam de um tempo para si. Só que o problema é que as pessoas estão realmente acreditando que a terapia é a nova Panacéia. Sabe o que é isso?
Panaceia é a cura para todos os males. A palavra me lembra o Brás Cubas, personagem do Machado de Asssis, que passou a vida tentando descobrir um emplastro que fosse a tal panaceia. Uma ideia típica do final do século XIX, de que a ciências naturais avançariam para melhorar a qualidade de vida das pessoas, entre outras coisas. Machado de Assis era extremamente crítico dessa visão positivista, que crê num desenvolvimento social que ocorre de maneira linear, contínua e que é inexorável.
Sendo menos alegórico e indo direto ao ponto porque cansei de escrever hoje: a minha visão é que o Machado zombaria de todo mundo que acredita que uma pessoa que faz terapia é mais saudável. Saúde mental não se cura, ela não vai melhorar sempre, o profissional de saúde não tem controle sobre a saúde mental de alguém e a própria pessoa também não possui controle sobre isso.
- A nova Casa Verde é em todo lugar.
Me sinto vivendo no conto O alienista. É aquele onde todo mundo na cidade vai internado, porque o psiquiatra acha uma loucura em cada uma das pessoas. No caso, é uma idéia ridículo achar que a terapia é panaceia, é a cura para todos os males, é a solução para os problemas do mundo, como o machismo, o racismo, o egoísmo, e todos os demais ismos. Afirmo que não é!
Não estou dizendo que a terapia não seja uma ferramenta importante no cuidado. Não estou dizendo que ela não funciona. Não estou dizendo que não resolve certos problemas Não estou dizendo que não ameniza certas coisas.
Porém, especialmente os problemas coletivos precisam de soluções que sejam coletivas para serem resolvidas. Machismo, racismo e xenofobia são exemplos de problemas que não se resolvem com terapia. São problemas sociais. Podem ajudar alguns indivíduos. O que quero lembrar aqui é só que a panacéia não existe e que a idéia é ridícula.
Cansei de escrever, nem vou revisar. Só precisava desabafar com textão.
Manda um pix que mando nudes: vinirauber@gmail.com
# Notas de um sociólogo de boteco: coletânea com um caráter mais teórico, sociológico, porém sem o rigor acadêmico. Inclui principalmente comentários sobre atualidades e assuntos em voga no debate público. No entanto, pode incluir reflexões e pensamentos de um cunho mais intimista, menos centrado em fatos ou em acontecimentos. O tom é de uma conversa de mesa de bar, regado a cerveja. No início da noite é comum que as conversas sejam educadas, sem elevação de vozes. Volta a meia há uma discussão acalorada sobre política. Há também os diálogos e monólogos mais filosóficos, íntimos, em tom de confissão de fim de noite, que fazem de recém-conhecidos melhores amigos ao menos por uma noite.


Concordo.